O Boi da Lua
O que Belém faz todo junho e ninguém parou para perguntar por quê
Por Fábio Costa
Mestre em Física, Teólogo e Magista
Todo ano, no segundo domingo de junho, o Boi Pavulagem aparece na varanda do Theatro da Paz. A multidão reunida na Praça da República sabe que vai acontecer, sabe que vai sentir algo, sabe para onde vai caminhar. O que ninguém sabe, e ninguém pergunta, é o que está acontecendo. O curimbó começa. O Batalhão da Estrela toma a Presidente Vargas. Trinta e cinco mil pessoas marcham até a Praça Waldemar Henrique sem que ninguém tenha dado uma ordem. Para quem observa de fora, parece festa. Para quem está dentro, parece outra coisa. Este artigo tenta nomear essa outra coisa.
I. Para que serve um ritual e o que ele produz
A palavra ritual intimida quem não a usa e entedia quem a usa demais. Vale começar pelo que ela significa antes de aplicá-la a qualquer coisa.
Em O Ramo de Ouro (1890), James George Frazer catalogou centenas de celebrações de povos sem contato entre si e identificou uma estrutura recorrente: o rei ou o animal sagrado morre em determinado momento do ano, e essa morte garante que o ciclo se renove. "O mito do deus que morre e ressuscita é fundamentalmente um mito agrário", escreveu Frazer, "é a expressão dramática do ciclo das estações na linguagem do sagrado." O sacrifício do boi, em culturas que vão da Creta minoica à África banto, não é crueldade nem espetáculo. É o gesto que garante à comunidade que haverá próximo ano.
O bumba-meu-boi é, na genealogia de Frazer, herdeiro direto desse gesto. O IPHAN registrou, ao inscrever o Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão como Patrimônio da Humanidade em 2019, que a festa "obedece a uma lógica na qual o tempo é regulado de acordo com as necessidades da sociedade camponesa." Junho é o clímax da engorda do gado. O boi está no auge antes do abate. A morte ritual no auto é a sublimação do abate real. A ressurreição é a promessa de que haverá boi no próximo ano, que a terra continuará produzindo, que a comunidade sobreviverá.
Em Belém não há gado. A cidade é portuária, ribeirinha, urbana. O rito sobreviveu ao deslocamento porque o que está em jogo nunca foi só a safra. É a continuidade da comunidade como comunidade. Isso qualquer cidade precisa renovar, todo ano, com ou sem plantação. Quando o Arraial do Pavulagem começou em 1987, um boizinho de tala na Praça da República, músicos querendo divulgar a banda, ninguém estava pensando em continuidade comunitária. Quase quarenta anos depois, o Arrastão resiste a governos hostis, a pandemias, a décadas de subfinanciamento da cultura. A forma ritual tem uma resiliência que a forma de show não tem. A repetição anual não é nostalgia. É o mecanismo pelo qual o pacto se consolida.
II. O tambor que veio antes de tudo
Peter Carroll, em Liber Null (1978), o manual fundador da magia do caos, escreveu: "A técnica primária do magista é a gnose, o estado de consciência focado obtido por meios fisiológicos. Os estados alterados de consciência são a chave para os poderes mágicos. O estado mental particular requerido tem um nome em cada tradição. Neste livro será conhecido como Gnose." Carroll distinguiu dois métodos para alcançá-la: o inibitório, que silencia a mente progressivamente, e o excitatório, que a sobrecarrega até o colapso do filtro crítico.
O curimbó é tecnologia excitatória com cinco mil anos de uso documentado. O instrumento é de origem tupinambá. O nome vem do tupi curi m'bó: pau oco. É um tronco de árvore escavado, coberto numa extremidade com couro de veado ou de boi, tocado com as mãos, com o músico sentado sobre ele. O jesuíta Frei João Daniel, no Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas (1767), foi o primeiro a descrevê-lo por escrito: "os índios Tupinambás dançavam e cantavam ao som de um tambor feito de tronco oco coberto de pele de animal, tocado sentados sobre ele, usando as mãos como baquetas." O Glossário Paraense de 1905, já em contexto colonial urbano, registrou o instrumento como "atabaque, tambor, provavelmente de origem africana." Dois povos chegaram ao mesmo objeto por caminhos distintos e encontraram no Pará colonial o lugar onde esse encontro produziu um som que não pertence inteiramente a nenhum dos dois.
O mecanismo pelo qual o curimbó age sobre o cérebro tem nome científico: neural entrainment. Snyder e Large, em estudo publicado no Cognitive Brain Research (2005), demonstraram por EEG que o cérebro sincroniza suas ondas de atividade elétrica com a frequência de estímulos rítmicos externos. Em percussão repetitiva de baixa frequência sustentada por horas, as ondas cerebrais migram para a faixa theta, entre 4 e 7 Hz, associada a estados de meditação profunda, transe e acesso a camadas não conscientes da psique. Esse mecanismo é idêntico em rituais xamânicos documentados em todos os continentes. Há fisiologia que as tradições descobriram antes de a ciência ter nome para ela. Quatro horas de curimbó em marcha coletiva, calor equatorial de junho, trinta e cinco mil corpos em movimento sincronizado: o censor consciente vai embora. Os tupinambás sabiam disso. O pajé não ressuscitava o boi cantando a cappella.
III. O boi morre e quem o traz de volta
O auto do bumba-meu-boi tem um enredo que a maioria dos brasileiros conhece sem saber que conhece. Mãe Catirina está grávida. Deseja comer a língua do boi mais bonito da fazenda. Pai Francisco mata o animal para satisfazer o desejo da mulher. O patrão descobre. O caos se instala. Médicos, padres e pajés são convocados. O boi é ressuscitado. Três sistemas de conhecimento são chamados ao mesmo tempo. O pajé é o que funciona.
Eduardo Viveiros de Castro, em A Inconstância da Alma Selvagem (2002), descreveu a cosmologia tupi-guarani como um sistema em que "o foco central não é a sociedade em si, mas os dois outros, o animal e o deus." Animais eram pessoas com outros corpos. O pajé era o único ser capaz de transitar entre as perspectivas: de ver o mundo como o animal vê, de falar com o que os outros não veem, de reconstituir o que a ação humana equivocada havia destruído. Quando africanos escravizados, colonos portugueses e povos da floresta começaram a habitar o mesmo território e a negociar o sagrado em formas comuns, o pajé foi inserido no centro do drama porque era o único operador disponível capaz de realizar o que o auto exigia. A função xamânica, mediação entre morte e vida, uso do transe como porta de acesso e o tambor como instrumento de convocação, entrou no bumba-meu-boi pela via dos povos originários e ali ficou, mesmo quando ninguém mais sabia chamá-la pelo nome. O pajé que ressuscita o boi no auto é o herdeiro direto do xamã que entrava em transe ao som do curimbó para buscar a alma do doente no reino dos espíritos. A função é idêntica. O figurino mudou.
IV. Cesar Teixeira sabia o que estava escrevendo?
Em 1978, Cesar Teixeira, poeta e artista plástico maranhense, fundador do Laborarte em 1972, compositor político que responderia a si mesmo quando perguntado quem era como "um sujeito que deseja o bem de todos e preserva o hábito saudável da cachaça com camarão seco", compôs uma toada para as festas juninas de São Luís. José de Ribamar Viana, o Papete, músico que depois acompanharia Toquinho em 482 shows por 18 países, a gravou no disco Bandeira de Aço, produzido por Marcus Pereira. A toada se chamava Boi da Lua. Se Teixeira leu Ferretti sobre o sebastianismo maranhense, se estudou astronomia mesopotâmica, se conhecia Jung, não há registro. O que há é a toada. E a toada sabe mais do que qualquer estudo pode ensinar.
Jung escreveu em Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo (1954): "Os arquétipos são formas ou imagens de natureza coletiva, que ocorrem em praticamente toda a Terra como componentes de mitos, e ao mesmo tempo como produtos individuais autônomos de origem inconsciente." O poeta não precisa ter lido o mito para que o mito fale por ele. O inconsciente coletivo fala primeiro. O consciente nomeia depois, se tanto.
A promessa: "Eu vim pagar a promessa / De trazer esse boizinho / Para alegrar sua festa." A festa é voto. O participante é devedor. A estrutura da dívida sagrada, vim porque prometi e trouxe porque devia, é anterior a qualquer religião organizada e sobreviveu a todas elas.
O objeto: "Olhos de papel de seda." O boi é manufaturado pela mão coletiva da comunidade. Cada ponto da costura carrega intenção. O curimbó é escavado na madeira. O boi é costurado no pano. Os dois são instrumentos rituais: diferem no material, não na função.
A estrela: "Com uma estrela na testa." Sergio Ferretti, em Encantaria Maranhense de Dom Sebastião (Revista Lusófona de Estudos Culturais, 2013), documentou que "o touro de Dom Sebastião constitui uma das vertentes formadoras do festival do bumba-meu-boi." Dom Sebastião, rei de Portugal desaparecido na batalha de Alcácer-Quibir em 1578, aparece nos Lençóis Maranhenses nas noites de lua de junho sob a forma de um touro com uma estrela pentagonal na testa. Todo grupo de bumba-meu-boi do Maranhão tem essa estrela no couro do boi. Teixeira a colocou no verso. A cultura colocou por ele.
O choro: "Chora Boi da Lua." O boi chora antes de morrer. Jung chamou de nigredo, o enegrecimento e a dissolução, o momento necessário antes de qualquer transmutação. Nada se transforma sem primeiro se dissolver. No verso, esse é o ponto em que a toada para de ser toada e se torna outra coisa, algo que o corpo do brincante reconhece antes da mente nomear.
O planeta: "Mamãe eu vi Boi da Lua dançar no planeta do Brasil." Planeta, não país. O epítome atribuído ao Pseudo-Eratóstenes, Catasterismos (séc. I a.C.), registra que o Touro foi colocado no firmamento por Zeus em memória da metamorfose com que o deus raptou Europa da Fenícia até Creta, com apenas os quartos dianteiros visíveis, como se o touro ainda emergisse das ondas. Os mesopotâmicos conheciam a constelação há cinco mil anos como relógio das colheitas. Em junho, Taurus está visível no firmamento. O boi da toada e o touro da constelação habitam o mesmo mês. São a mesma figura em escalas diferentes. Se Teixeira sabia disso ou não, o verso ficou certo. Se este artigo o encontrar com vida, a pergunta que fica é simples: o que você estava ouvindo quando escreveu?
V. A estrela que conecta tudo
O Ritual Menor do Pentagrama, às vezes abreviado como RMP, é o exercício básico da magia cerimonial ocidental. Codificado pela Hermetic Order of the Golden Dawn no século XIX e refinado por Aleister Crowley, é o primeiro ato de qualquer trabalho ritual: o mago traça uma estrela de cinco pontas, o pentagrama, nos quatro pontos cardeais ao redor de si, criando um espaço separado do uso ordinário e preparado para o trabalho. Crowley escreveu: "A primeira tarefa dum Magista em toda cerimônia é consequentemente tornar seu Círculo absolutamente impenetrável." A estrela de cinco pontas com a ponta voltada para cima representa, na tradição thelêmica de Crowley, o espírito dominando a matéria, o microcosmo em equilíbrio, a vontade ordenada. Cada pentagrama traçado é um selo. O conjunto dos quatro sela o espaço.
No cortejo do Pavulagem, a estrela de cinco pontas aparece em três escalas simultâneas, sem que ninguém tenha pedido. Na testa do boi: a estrela de Dom Sebastião, o rei encantado, o arquétipo do soberano que não morreu e retorna para renovar o pacto com seu povo. No chapéu de cada brincante: o artesão Clay Freire criou o chapéu como proteção solar, mas a estrela azul no topo representa São João Batista, regente do Batalhão da Estrela, e as oito fitas coloridas representam os santos juninos, entre eles São Sebastião, a camada cristã sobreposta à camada mítica, o santo sobre o rei encantado, o couro sobre o arquétipo. No céu de junho: Taurus, com Aldebarã, o olho do touro, como estrela mais luminosa da constelação.
O princípio hermético fundamental diz: como acima, assim abaixo. Quando o Batalhão da Estrela marcha pela Presidente Vargas, está debaixo do touro celeste, carregando estrelas nas cabeças, seguindo um boi com estrela na testa. A letra de Ronaldo Silva e Toni Soares confirma sem intenção: "tá vindo da estrela, traz batalhão afiado e o couro bordado." E no refrão: "do arraial que é do sol, do arraial que é da lua, do povo na rua." Sol e lua. Macrocosmo e microcosmo. O princípio hermético executado por músicos paraenses que nunca ouviram falar de Hermes Trismegisto.
VI. O cortejo como estrutura completa de trabalho
Todo ritual de magia cerimonial tem uma sequência: abertura do círculo, banimento das interferências, invocação das forças com as quais se pretende trabalhar, o trabalho em si, banimento final e fechamento. A estrutura não é doutrina de uma tradição específica. É a lógica de qualquer ação intencional no espaço e no tempo: você prepara o ambiente, convoca o que precisa, faz o que veio fazer e encerra. O Arrastão executa essa estrutura sem nomeá-la.
O cortejo começa no rio. O Boi Pavulagem desce o Guamá em procissão fluvial antes de ganhar as ruas. Na cosmologia amazônica, o fundo das águas é o reino dos encantados, das entidades que emergem para o mundo dos vivos. O boi que vem do rio vem de onde os mortos e os encantados habitam. É a abertura do canal entre os planos, a primeira ação do ritual.
A multidão toma a Presidente Vargas. O espaço urbano é temporariamente retirado do uso ordinário. As ruas são fechadas. A cidade inteira é redefinida como espaço de outro tipo. O círculo está traçado.
O curimbó bate. O estado alterado começa a se instalar. Os elementos do cortejo entram em cena: as pernas de pau elevam os mediadores entre os planos, o ser do entre-lugar, nem completamente no nível do chão nem no nível do ar, posição que tradições rituais de todos os continentes reservam para os intermediários. Os cabeções, figuras mascaradas com cabeças enormes, suspendem a identidade individual. A persona, palavra latina para máscara, deu origem ao conceito de personagem teatral. O teatro grego era ritual antes de ser arte. O boi com estrela na testa é carregado ao centro do cortejo. A invocação está feita.
A marcha pela Presidente Vargas é o trabalho. Quatro horas de percussão, movimento coletivo, calor e intensidade acumulando. O estado de gnose coletiva atinge o pico na chegada à Praça Waldemar Henrique.
O mastro cai ao fim da quadra junina. O espaço é devolvido ao uso ordinário. O boi vai descansar. A promessa foi cumprida. O ciclo foi renovado. A cidade continua de pé por mais um ano.
VII. Belém não sabe o que faz. Por isso funciona.
Jung escreveu em Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo: "Não são os homens que inventam os mitos; são os mitos que se utilizam dos homens para se recriar." O Pavulagem não foi inventado como ritual. Emergiu como ritual porque o inconsciente coletivo não aguarda convite. Quando há tambor, máscara, ser elevado, animal sagrado e multidão em marcha temporal, os arquétipos comparecem.
Carroll identificou na lust of result, a ansiedade do resultado, o maior sabotador do trabalho mágico. Quem quer demais o resultado o contamina com a consciência do querer. Trinta e cinco mil pessoas que não sabem que estão participando de um ritual de renovação não têm essa ansiedade. As condições para um trabalho de alta eficácia, na linguagem do próprio Carroll, são perfeitas precisamente porque ninguém as buscou.
O resultado é visível sem precisar de teoria: uma brincadeira de 1987, montada com um boizinho de tala para atrair audiência, tornou-se patrimônio nacional, resistiu a décadas de subfinanciamento e à interrupção pandêmica e cresce em número de participantes a cada ano. A forma ritual tem uma resiliência que a forma de show não tem porque não depende de novidade. Depende de repetição. A repetição é o mecanismo pelo qual os arquétipos se consolidam no tecido de uma cultura.
A cultura amazônica carregava todos esses elementos em estado latente: o curimbó tupinambá que age sobre o cérebro, o pajé que transita entre os planos, a estrela de Dom Sebastião que marca o touro do rei encantado, os encantados do rio que emergem quando convocados. O Pavulagem os colocou juntos numa rua de junho. O resto aconteceu sozinho.
O Boi da Lua dança no planeta do Brasil. Sempre dançou. Em Creta chamavam de Zeus. Em Lisboa chamavam de Dom Sebastião. No terreiro chamavam de encantado. Em Belém chamam de Pavulagem. O touro não muda. Muda o nome que a época lhe dá, e o esquecimento de onde ele veio é o que o mantém poderoso.
Considere a heresia de ler e estudar.
Fontes e leituras
- James George Frazer, O Ramo de Ouro (1890)
- Carl Gustav Jung, Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo, Obras Completas vol. IX/1 (Vozes, 2000)
- Peter J. Carroll, Liber Null & Psychonaut (Weiser, 1987)
- Eduardo Viveiros de Castro, A Inconstância da Alma Selvagem (Cosac Naify, 2002)
- Sergio F. Ferretti, Encantaria Maranhense de Dom Sebastião, Revista Lusófona de Estudos Culturais, vol. 1, n. 1 (2013)
- Pseudo-Eratóstenes, Catasterismos (epítome, séc. I a.C./d.C.; trad. E.D. Moreira, UFRJ, 2021)
- Aleister Crowley, Magick in Theory and Practice (1913)
- Frei João Daniel, Tesouro Descoberto no Máximo Rio Amazonas (1767, ed. Contraponto, 2004)
- Cesar Teixeira, Boi da Lua, in Bandeira de Aço (Discos Marcus Pereira, 1978), interpretado por Papete
- Snyder, J. S. & Large, E. W., Gamma-band activity reflects the metric structure of rhythmic tone sequences, Cognitive Brain Research (2005)
- Instituto Arraial do Pavulagem, pavulagem.org
- IPHAN, Complexo Cultural do Bumba-meu-boi do Maranhão (patrimônio imaterial UNESCO, 2019)
- Walcyr Monteiro, Visagens e Assombrações de Belém (ed. Smith, 2007)
- Heraldo Maués, Padres, Pajés, Santos e Festas (Cejup, 1995)
- Aldrin Moura de Figueiredo, A Cidade dos Encantados (EDUFPA, 2008)
Nota: as interpretações de ordem ritual apresentadas neste texto não constituem afirmação sobrenatural, mas leitura estrutural-comparativa de práticas coletivas, método consolidado na antropologia religiosa desde Frazer, Eliade e Victor Turner.